Entrevista

O jovem realizador e argumentista luso-francês Ruben Alves revela aos leitores de GoFord os segredos da sua querida Lisboa. Nascido em Paris (1980), filho de emigrantes portugueses, visitou Lisboa durante toda a sua infância e foi já adolescente, junto aos seus amigos, que conheceu realmente a cidade da qual agora está apaixonado. Saiba quais são os seus cantos preferidos da capital lusa.

Quais são as primeiras lembranças que tem de Lisboa?

Vou a Lisboa desde pequenino para ir ter com a família. Passava as férias nos arredores da capital e ficávamos lá 2-3 dias para visitar pessoas. Lembro-me de ir sempre comer os pastéis de Belém e atraía-me imenso a cidade. Achava o máximo poder ver os eléctricos a passar. Mas descobri mesmo Lisboa na minha adolescência, quando comecei a viajar com amigos e quis conhecê-la bem.

lisboaE o que encontrou?

Fiquei fascinado, encontrei uma cidade com duas velocidades. Por um lado, é um lugar “IN” e ao mesmo tempo encontras uma tasca que parece ser de 1910 com pessoas que ficaram paradas no tempo. Para mim, como realizador e guionista, Lisboa é um teatro ao ar livre. Basta ir ao café, sento-me lá e não consigo ir embora. Adoro ouvir as histórias das velhotas. Não precisamos de ir muito longe para encontrar bons argumentos, parece que estou num filme de Felini. Amo Lisboa pelo ambiente, pelas pessoas.

Por outro lado, em termos de decoração é muito interessante. Lisboa oferece muitas surpresas porque há lugares que não consegues imaginar. Abres uma porta e encontras coisas fantásticas. Tens ruas e praças maravilhosas e ao lado lugares onde pareces estar no campo.

E como realizador, que Lisboa gosta de observar?

O Bairro da Ajuda, por exemplo. É uma zona maravilhosamente cinematográfica. Podes observar os carros a entrar e sair pela ponte. Estás lá e parece que estás no campo. Ao mesmo tempo encontras casas com as roupas penduradas na janela. E a Lx Factory, que nos lembra Nova York e Berlim. Fascina-me esta zona.

E adoro igualmente ver Lisboa desde o outro lado, desde a margem sul. Por exemplo, a zona de Cacilhas, que parece abandonada, tem um lado muito alternativo. Quero fazer alguma coisa lá, seja uma curta-metragem ou um vídeo clip. É um lugar diferente e maravilhoso. Acho que se podia fazer lá um hotel fantástico, com vistas para Lisboa, e colocar um barco para transportar às pessoas de um lado para outro do Tejo.

cacilhas vistaO que aconselha a alguém que vai a Lisboa por primeira vez?

Perder-se na cidade, eu sempre faço isso em todas as cidades para onde vou. Andar sem rumo, para que a cidade te surpreenda. E em Lisboa encontrarás assim uma dinâmica fantástica porque existe uma nova geração que está a fazer coisas muito boas. Lisboa não perdeu a sua alma e por isso resulta tão atractiva para os de fora.

Quais são os seus cantos preferidos da cidade?

Lisboa tem uma estrutura estranha, com o comboio a passar no meio da cidade. Mas gosto da zona que vai desde o Cais do Sodré até as Docas, os cais da cidade. Tem uma grande dinâmica onde encontras barcos gigantes dos cruzeiros e ao mesmo tempo barcos pequeninos de pescadores e barcos de vela dos particulares. Lisboa não é uma cidade óbvia, tens de “lutar” para encontrar coisas.

Alfama é igualmente um lugar interessante. É um dos bairros mais antigos da cidade onde encontras ruas muito pequenas e pessoas que nunca saem de lá. É um microcosmos mas também é um bairro muito turístico. Por isso as vezes há um confronto entre os vizinhos de Alfama e os turistas, mas sempre acaba de melhor forma.

E um lugar para passear?

O Martim Moniz é a zona mais cosmopolita de Lisboa, entre os mercados africanos, chineses, indianos….Ao pé da parte mais alternativa do Intendente. Toda a gente aprenderia muito se passeasse por ali, estão todos misturados sem problemas.

E imagino que também aconselha o seu bairro, a Bica

lisboa bicaClaro, adoro a Bica, onde tenho lá casa. Um dia, a conversar com Carlos do Carmo, que já morou na Bica, disse-me que este bairro está no meio de duas realidades. Chiado por cima, onde estava a burguesia, e por outro lado Santa Catarina, uma zona popular. E a Bica é o cruzamento de esses dois mundos, a mistura é muito engraçada.

As pessoas têm uma ideia errada de Lisboa?

Uma imagem desconhecida, e as pessoas estão agora a descobrir a cidade. Não tem nada a ver com a Lisboa de há 15 anos. Em Paris estão todos malucos com Lisboa. Portugal está mais sexy e Lisboa fez muito por isso.

Ajudou o seu filme Gaiola Dourada a dar a conhecer Portugal fora?

Ajudou a dar a conhecer a cultura portuguesa que é fantástica. Houve um debate interessante com o meu filme e nunca pensei que ia ter tanto sucesso em Portugal. E é importante que os portugueses que moramos fora do país não sintamos complexo de Portugal. É preciso agir e fazer novas coisas para mudar as coisas. Devo dizer que o filme é francês mas tem alma portuguesa.

Como foi trabalhar com o Vhils, outro jovem português muito criativo?

Fantástico, ele é um cidadão do mundo, o espírito dele está em todo lado. Eu contactei com ele porque quis fotografar o rostro de Amália para o projeto de um CD. Quis que fosse ele a desenhar. E ele foi mais além e propus fazer o rostro na calçada, numa subida, foi uma loucura mas resultou muito bem. Assim podemos mostrar lá fora o trabalho dos calceteiros.

Está num bom momento o cinema português?

Sempre houve criatividade e é preciso apostar na cultura porque é o espelho da alma de um país. Desde fora se desconhece muito o cinema português mas agora já tem mais visibilidade, se está a fazer um bom trabalho.

E para quando um filme seu gravado em Lisboa?

Estou desejoso de poder filmar em Lisboa. Para já, fiz um documentário sobre o fado para a TVI. Tenho uma produtora e com ela pretendo mostrar as coisas boas de Portugal.