Piscologia

“Quando uma criança não aprende o prazer que há em correr, saltar, subir a uma árvore ou brincar na rua, está a eliminar a sua capacidade de criar, de inventar, de encontrar soluções e de ser saudável”. Estivemos à conversa com Cristina Valente, psicóloga formada pelo I.S.P.A. – Instituto Superior de Psicologia Aplicada, ex-jornalista e apresentadora de televisão. A sua paixão pelo ser humano e, muito especialmente, por aqueles que são Pais e Crianças, levou-a a orientar a sua carreira profissional para a área do Aconselhamento Parental. Descubra o que nos disse.

1- Que respostas procuram os pais que lhe pedem ajuda?
Os pais esperam determinadas respostas, porém eu mudo-lhes as perguntas. Por exemplo, trazem-me perguntas como: “O que faço para que o meu filho me escute, me obedeça, me ajude nas tarefas de casa?” Este tipo de perguntas são focadas neles próprios (ego) e no presente. São, pois, de curto-prazo. Como trabalho sobretudo com as emoções dos pais, no sentido de se conhecerem melhor e de se focarem no seu próprio desenvolvimento pessoal, ensino-os a mudarem as perguntas. Por exemplo, focadas no filho e no futuro, de longo-prazo: “O que faço para conseguir que o meu filho se sinta mais amado e autoconfiante?”; “Como posso entender as suas reais necessidades ?”; “Como poderemos ambos transformar os nossos problemas em lições positivas…sem nos magoarmos mutuamente?”. Primeiro, os pais assustam-se, mas rapidamente entendem que este caminho é maravilhoso.

2- O respeito e obediência aos mais velhos era regra inquestionável no tempo dos nossos pais e avós. Hoje, não raras as vezes, até vemos crianças a bater nos pais. Como é que mudámos tanto em tão pouco tempo?
Passámos de um regime autoritário, em que havia modelos de submissão na sociedade e também na família, para uma permissividade que esconde, no fundo, sentimentos de culpa e insegurança por parte dos pais. Estes sabem que não estão a dar o melhor de si aos seus filhos – tempo para a relação e amor com limites. Por isso, sabem bem lá no fundo que perderam legitimidade para exigir aos filhos aquilo que eles próprios não possuem. Autocontrolo, alegria, respeito. Sentem que perderam autoridade. E por isso tornam-se permissivos, com receio que os filhos deixem de amá-los. Claro que isto passa-se, muitas vezes, a um nível mais profundo, inconsciente até. Mas aceitar este facto é meio caminho para uma parentalidade consciente, sólida e positiva.

3- A desobediência e mau comportamento nas crianças também é culpa dos pais?
Prefiro falar em responsabilidade em vez de culpa. Culpa é um sentimento inútil que não convoca para a acção nem para a melhoria contínua, apenas para a auto-censura. Um mau comportamento é sempre um pedido de ajuda. A criança porta-se mal quando precisa de chamar a atenção negativa, quando tem necessidade de poder (negativo), quando se quer vingar porque foi magoada ou porque se sente incapaz de algo. É sempre um pedido de ajuda. A responsabilidade dos pais é aprenderem a descobrir e a entender a verdadeira causa desse mau comportamento, que muitas vezes não é óbvia. No meu trabalho de coaching parental, ensino os pais a descobrirem a verdadeira causa. Quando finalmente aprendem, exclamam: “Afinal é simples. Por que é que ninguém me ensinou isto antes?”. A vantagem de aprenderem a metodologia é que a podem levar pela a vida fora e não precisam mais de mim para nada. Não gosto de manter os clientes muito tempo ao pé de mim. Trabalho com eles como gosto que eles trabalhem com os filhos, dando autonomia, independência e promovendo a criatividade e a resolução de problemas.

4- O que andam os pais de hoje a fazer errado?
Eu diria que o ponto não é o que fazem de errado pois o erro é uma oportunidade valiosa de aprendizagem, mas sim errarem de forma sistemática. Os pais cometem sistematicamente alguns erros como pensar que os filhos não os amam e que falharam na educação que lhes deram, que não têm que pedir desculpas quando falham, não perceberem que a relação entre pais e filhos exige tempo e desesperarem-se para ver resultados imediatos, como se as crianças se tornassem adultas de um dia para o outro. Na verdade tem que existir amor, paciência e humildade em doses monumentais. Estas são, aliás, as três ferramentas mais poderosas de um verdadeiro líder. E na verdade a parentalidade é um exercício de liderança.

5- Pecam por excesso de proteccionismo aos filhos?
Uns pais superprotegem, sim. Outros são autoritários. No entanto, o mais comum é alternarem entre estes dois estilos parentais. Umas vezes controlam os filho, um método tão tóxico que os próprios adultos acabam por recusar e noutras vezes tornam-se permissivos, até que algo corre mal, levando-os a concluir que a velha maneira de educar, de rédea curta, é que é a correcta. Muitos de nós passamos a vida a saltar de um método para outro. Nos adolescentes estes métodos são ainda mais ineficazes. A incoerência baralha os miúdos e, pior do que isso, não traz resultados para nenhuma das partes.Cristina Valente

6- Ser um exemplo para os filhos, tornou-se numa tarefa assustadora para os pais?
Ser um exemplo é um exercício duro de liderança. Um líder tem que ter a capacidade de fazer com que outros o sigam. Um líder tem uma visão muito clara do que quer alcançar e do que precisa de fazer para lá chegar, inspirando os outros e transmitindo-lhes essa visão, com disciplina e paixão. Nos dias de hoje, falta paixão e falta disciplina. Ser pai é visto como algo doloroso que vamos ter que suportar durante longos anos. Faz falta os pais desarrumarem-se, num sentido positivo, darem gargalhadas e brincarem, sem medo de perderem autoridade. Educar com base no amor e não no medo. No Treino das Emoções, os pais conseguem finalmente entender por que têm tanto medo. E quando se tornam conscientes das razões profundas para terem medo, essa emoção simplesmente desaparece e sai-lhes um peso enorme de cima dos ombros. Como consequência imediata, os filhos sentem essa leveza e a relação melhora. É maravilhoso para mim poder assistir a essa transformação apenas durante um fim de semana.

7- Tem defendido publicamente que é contra o castigo. Porquê? O que devem, então, fazer os pais para mostrar aos filhos que há consequências quando se portam mal?
Antes de responder preciso clarificar conceitos. Castigo é algo que implica dor, humilhação, vergonha ou culpa. A raiva e o castigo nunca são baseados em amor. Talvez seja a altura de começarmos a adoptar uma educação mais carinhosa. O carinho convida à cooperação. O castigo convida ao ressentimento e à rebeldia. Quando pais e professores me dizem, desesperados, que já tentaram de tudo para lidar com o mau comportamento da criança e que nada funcionou, peço-lhes para me dizerem o que é esse tudo. E esse tudo é uma lista infindável de estratégias que eu considero negativas e, pior, não produtivas, como sermões, castigos, retirada de privilégios ou palmadas. E porque será tão difícil para um adulto desistir de usar castigos mesmo depois de perceber que nunca resultam? Sentem receio de cair na permissividade e de perderem o controlo da situação? Quando castigamos uma criança estamos a tratá-la como um ser inferior, porque, na verdade, o nosso único objectivo é que se porte bem. Assusta-me que no século XXI o castigo ainda seja uma prática comum, considerada aliás uma forma de disciplina legítima e adequada.

É errado, portanto.
Cada vez que castigamos as nossas crianças, estamos a perpetuar a crença de que elas não passam de animais irracionais e seres inferiores que precisam de ser domesticados, treinados e controlados, ou seja, sofrendo castigos quando se portam mal e recompensas quando se portam bem. O castigo reflecte uma falta de confiança. E não existe relação positiva sem confiança. A criança que é castigada cresce a acreditar que o castigo que recebe é merecido e que, portanto, é um ser pouco confiável. Quantas vezes nas sessões para pais e professores oiço a frase: “Pois, mas eu levei umas palmadas e só me fizeram bem”. Fico assustada porque, pior do que a passagem da crueldade física ao longo das gerações, é a continuação da crença de que punir uma criança faz parte de uma educação normal e positiva. Os pais sabem, no fundo, que castigar não é bom, mas não conhecem outras alternativas. As consequências relacionadas com a situação e as negociações inteligentes são as alternativas que eles precisam e as que as crianças merecem. Sempre com dignidade e respeito mútuos.

8- Como vê a problemática do excesso de tecnologia e a alienação das crianças do mundo real a favor do virtual?
Neste momento já não vejo sequer a dicotomia real-virtual. Vivemos online constantemente e isso não tem que ser mau. Temos apenas que ter consciência dos riscos, dos danos e das potencialidades. Obviamente que quando há uma criança que não tem regras para dormir, comer ou estudar, também não as terá para usar as ferramentas digitais. O digital, tal como o dinheiro, tem a capacidade de expandir aquilo que o ser humano já é. Temos, pais, escolas, media, que estar conscientes de que estas gerações mais novas, sendo as mais experientes, são também as mais vulneráveis. E que todos somos responsáveis pela monitorização dos mais novos no mundo online. Por exemplo, um adolescente de 15 anos tem que continuar a ser monitorizado e protegido pelos seus pais e professores.

9- É assim tão grave que as crianças já não queiram correr, saltar à corda, subir às árvores e brincar na rua? Não será apenas um sinal dos tempos que devemos aceitar?
Somos animais e estamos a distanciar-nos rápida e perigosamente da nossa essência. Aceitarmos isso passivamente é o mesmo que aceitarmos o buraco do ozono, que também é um sinal dos tempos. O ser humano se estiver parado, atrofia o corpo mas também a mente. E, como mente e corpo formam um sistema único, quando desenvolvemos um, desenvolvemos o outro. A falta de actividade física e ar livre, tal como a brincadeira espontânea são património da humanidade. Quando uma criança não aprende o prazer que há em correr, saltar, subir a uma árvore ou brincar na rua, está a eliminar a sua capacidade de criar, de inventar, de encontrar soluções e de ser saudável.

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