Mata do Bussaco: uma nova vida chega com a Primavera

Escapada

José Saramago disse: “A Mata do Bussaco não se descreve. O melhor é perder-nos nela”. E tão certo estava o escritor, porque, ainda que com palavras se consiga descrever o majestoso cenário lá encontramos e os elementos que contribuem para a sua beleza incontornável, palavra nenhuma é suficientemente eficaz para descrever o que se sente quando se está dentro dela. Por isso, escrevemos para si sobre o que vimos por lá, mas acima de tudo desafiamo-lo a visitar, conhecer, experimentar e sentir por si mesmo.

Com a Primavera a chegar, a mata do Bussaco recomeça um novo ciclo. As cores escuras que vestem a floresta durante o Inverno começam agora a dar lugar ao verde vivo, o sol rasga por entre as copas da árvores, que começam a exibir-se mais densas com a nova folhagem e as milhares de aves que nelas habitam despertaram frenéticas para a nova estação.

São 105 hectares de floresta plantados na Região Centro do país, entre Coimbra, Aveiro e Viseu, composta por espécies do mundo inteiro, trazidas pela Ordem religiosa dos Carmelitas Descalços, no século XVII, e que ergueram aqui o seu retiro de contemplação, oração, isolamento e desconexão com o mundo.

Classificado como Monumento Nacional e candidato a Património Mundial da UNESCO, o Bussaco encerra em si um valor incalculável e único no mundo, de pendor histórico, religioso, militar, botânico, paisagístico, arquitectónico e cultural.

bussaco 11Há cinco trilhos que pode seguir para explorar o Bussaco: Trilho do Adernal, Trilho da Água, Trilho Floresta Relíquia, Trilho Militar e Trilho Via-Sacra. Estão todos devidamente assinalados no mapa que pode solicitar à entrada. Ao longo de cada percurso vai sendo chamado à atenção para lagos, fontes, capelas, ermidas, árvores notáveis e miradouros, do cimo dos quais consegue perceber a extensão de perder de vista desta gigantesca mata encantada.

Bem ao centro da mata pode visitar o conjunto arquitectónico mais evidente e esplendoroso, composto pelo Convento de Santa Cruz e o Palace Hotel. O convento foi construído entre 1628 e 1630 pela Ordem dos Carmelitas Descalços, que o ocupou de 1630 até 1834, data da extinção das ordens religiosas masculinas. Mais tarde, ainda antes do final do século, as estruturas anexas à igreja, que se mantém preservada e visitável, foram destruídas para dar lugar ao Palácio do Bussaco, hoje transformado em hotel e considerado um dos mais belos e luxuosos do mundo.

O Palace Hotel é, sem dúvida, um dos principais pontos de interesse desta visita, pela sua beleza e grandiosidade, que o transportam para o mundo da fantasia e dos contos de fadas. Foi desenhado pelo cenógrafo Luigi Manini e é uma recriação da arquitectura manuelina, inspirada em obras como a Torre de Belém ou o Mosteiro dos Jerónimos e reproduzindo a sua decoração rica de pormenores, ostentando inúmeras obras de arte, magníficos frescos, valiosos quadros e fantásticos painéis de azulejos, representando a Epopeia dos Descobrimentos Portugueses e a Batalha do Bussaco, da autoria dos maiores mestres portugueses do séc. XIX.

Adernal, lagos e fontes e via-sacra

bussaco 8O adernal é outro dos incontornáveis ex-libris da Mata do Bussaco. Um bosque composto por uma espécie de arbusto, o aderno, que aqui toma as proporções de uma árvore de copas densas e que convive com medronheiros, loureiros, azevinho, carvalhos e espécies trepadeiras, compondo o que se convencionou chamar de Floresta Relíquia, pela sua raridade e singularidade. Aqui viaja-se para outra dimensão, onde a comunhão com a natureza é levada ao limite.

E para que toda esta vida seja possível a água é elemento essencial. A Mata do Bussaco encontra-se inserida no extremo noroeste da Serra do Bussaco, local de relevo proeminente e precipitação abundante. Num contexto litológico favorável, permite abundante água subterrânea e superficial, propiciando uma floresta exuberante. Entre os séculos XVII e XIX, as nascentes e linhas de água que se encontram na Mata do Bussaco, comportaram várias intervenções, nomeadamente a construção de lagos e fontes, que encontra neste percurso, entre as quais a mais célebre, a Fonte Fria. As duas linhas de água predominantes unem-se na aqui, originando uma única linha de água que percorre o Vale dos Fetos, outro lugar de visita obrigatória, onde grandes fetos assumem o tamanho de árvores e transformam a paisagem em algo único.

Mesmo que não escolha o trilho da Via-Sacra, vai encontrar-se com algumas das pequenas capelas inseridas na Mata, que representam os passos da Prisão e Paixão de Cristo, evocados por esculturas em barro nelas inseridas. Apesar de não se encontrarem no melhor estado de conservação não deixam de, pela sua autenticidade e expressividade, cumprir o propósito para o qual foram criadas de recriar o trajecto percorrido por Jesus, carregando a cruz desde Pretório até ao Calvário.

bussaco 3Desde 2009 que a Fundação Mata do Bussaco existe enquanto entidade que trabalha pela preservação deste património, promovendo actividades de educação ambiental, turísticas e de lazer com programas para grupos, famílias e escolas com workshops e oficinas que pode consultar em www.fmb.pt.

Se optar por pernoitar, além do Palace Hotel do Bussaco, inseridas na mata estão pequenas unidades de alojamento criadas nas antigas casas dos guardas florestais, reabilitadas para o efeito. As Casas do Bussaco são sete e convidam ao descanso em plena comunhão com a natureza. Pode ainda incluir no passeio uma visita à Serra do Luso, que fica mesmo ao lado do Bussaco e ainda explorar a riqueza gastronómica da região da Bairrada, dois extras que vão, certamente, tornar esta escapadinha ainda mais inesquecível.

Fotos: Paula Lagoa