Escapada

Pela história ou pela lenda, assombrados ou mágicos, muitos são os lugares de Portugal que merecem uma visita pelo que lhes está associado de estranho e sobrenatural. São apenas boas desculpas para conhecer um pouco mais a fundo este país com novecentos anos de história, alguma perdida na bruma da crendice e do oculto. Esqueça o Halloween e venha descobrir lugares assombrados que são muito portugueses.

Vilar de Perdizes

É em Trás-Os-Montes que começamos, numa pequena aldeia do concelho de Montalegre onde, há mais de trinta anos, todos os anos perto do fim do Verão se encontram desde cientistas e investigadores a curandeiros, bruxos, videntes, médiuns, astrólogos, tarólogos, mas também muitos curiosos e turistas.

É a figura do Padre Fontes que simboliza este extraordinário encontro entre o sagrado e o profano, um estudioso das plantas e ervas usadas para combater algumas doenças. Alguns dos temas deste ano dão-nos bem um retrato do Congresso de Medicina Popular: “As urtigas na gastronomia”, “Ler sem medo o livro de São Cipriano”, “As elites mecânicas: barbeiros e sangradores”, “Encosto dos espíritos. Exorcismo”, “Magia do sorriso”, “Magia e magos galegos” e “Crendices e educação na medicina popular”.
Se os seus interesses forem mais terrenos, pode sempre subir à serra do Larouco, visitar o numeroso património arquitetónico e cultural ou apreciar os prazeres da mesa. Afinal de contas, estamos em Trás-Os-Montes!

Sanatório de Mont’Alto

Na Serra de Santa Justa, em Valongo, fica o último sanatório que funcionou em Portugal, entre 1958 e 1975, destinado a doentes de tuberculose. Inicialmente pensado para cerca de 50 pacientes, o Sanatório de Mont’alto chegou a albergar mais de 350 almas, tendo muitas delas sucumbido ali. Naturalmente… um lugar assombrado.

Da autoria do mesmo arquiteto do Teatro Rivoli ou do Coliseu do Porto, Júlio José de Brito, após o seu encerramento foi pilhado, vandalizado e danificado por incêndios. Atualmente está abandonado, e os amantes de paintball usam-no como local de recreio. Contudo, no ar rarefeito da serra, pululam as lendas relacionadas com avistamento de fantasmas, rituais satânicos e (porque não?) tráfico de droga.

É extraordinário que, em plena segunda metade do século XX, ainda se tratassem os tuberculosos como no século XIX, isolando-os em altitude, confiando nas benesses do ar puro, e talvez este local fora de tempo só pudesse estar… assombrado. Se os fantasmas não o apoquentarem, vale a pena a vista, ampla e límpida.

Lagoa Escura

Várias são as lendas associadas à Serra da Estrela em geral e às suas lagoas (a Lagoa Comprida e a Lagoa Escura) em particular. Centremo-nos na Lagoa Escura. A frequência dos afogamentos e desaparecimentos espalhou entre os pastores da região o mito de que uma mão gigante puxaria para o fundo quem nela se atrevesse a nadar. A versão dos anos 60 fixada por Gentil Marques é particularmente interessante, ao colocar em confronto um jovem cientista de 1881 e as crendices locais.

Reza essa mesma lenda que a lagoa sem fundo estaria ligada ao mar e à história de uma moura encantada (frequentes em Portugal) que queria casar com um guerreiro cristão. O destino de tal moura? O afogamento. Apenas um guerreiro mouro a poderia desencantar e com ela as águas da lagoa.

Vale a pena ir conhecer as lendas no local, juntando-se a uma das caminhadas organizadas entre a Lagoa Comprida e a Lagoa Escura, aproveitando tudo o que a serra mais alta do continente tem para oferecer.

Quinta da Regaleira ©iStock, rmbarricarte

Quinta da Regaleira ©iStock, rmbarricarte

Castelo de Montemor-o-Velho

Em Montemor-o-Velho, são muitas as histórias: guerreiros degolados que voltam à vida, o abade João que rachou ao meio um mouro, aqui teria Inês de Castro conhecido a sua sentença. Mas fixemo-nos numa, a lenda das arcas.

Diz-se que no castelo de Montemor-o-Velho estão enterradas duas arcas, uma cheia de ouro e a outra cheia de peste. Seriam presente amaldiçoado de casamento de um alcaide medieval para a sua filha que, contra a vontade do pai, queria casar com um dos seus cavaleiros. Os apaixonados fugiram mas foram facilmente capturados.

Levados perante o alcaide, revelaram que eram já marido e mulher. Este deu-lhes então uma prenda maldita: duas arcas idênticas fechadas, uma com ouro e a outra com peste. Teriam de escolher o seu presente de casamento! Os jovens preferiram o seu amor e fugiram do desafio, deixando para trás as duas arcas que nunca ninguém ousou abrir e que ainda hoje estarão enterradas nas muralhas do castelo de Montemor-o-Velho.

São só lendas, claro. Curioso é que em 2003, na gravação de uma telenovela neste local, o sobrenatural teria atacado a produção: uma luz vermelha anormal, atores de personalidade inexplicavelmente alterada, atrizes com voz de homem vomitando sangue negro. Até um padre foi chamado ao local mas o pároco culpou… o stress.

Ponta da Má Merenda

Também nos Açores, na Ilha Terceira, um pai fidalgo castigador e uma filha apaixonada contra a sua vontade são tema de lenda, aqui de final mais trágico e atlântico.

A jovem fidalga, apaixonada por um jovem trabalhador do mar, recusou-se a casar com um homem mais rico, mais velho, como era vontade do pai. O jovem partiu para fazer fortuna e voltar como noivo desejado mas o pai encerrou a pequena num forte junto da praia, alimentada apenas a pão e água – a “má merenda” que deu nome ao local.

Tão má era a merenda que a jovem frágil e sofredora morreu e foi ali enterrada. Quando o seu apaixonado voltou e soube da tragédia, remeteu-se desgostoso a um convento, acabando também por morrer e ser enterrado junto da sua amada.

Ainda hoje, quando o mar está bravo, se ouvem os lamentos dos dois amantes e, em dias de calmaria, podem-se escutar as suas vozes, falando baixinho, naquele lugar da Praia que passou a chamar-se Ponta da Má Merenda.

Convento de Cristo

Por toda a Europa, muitas são as lendas associadas aos Templários, ordem religiosa fundada após a conquista de Jerusalém nas cruzadas e extinta depois da sua queda, duzentos anos mais tarde. Em Portugal, Dom Dinis refundou os templários como Ordem de Cristo, a que é dedicada o famoso convento em Tomar.

O Tesouro dos Templários, fabuloso resultado de saques e doações, está até hoje perdido, segundo a lenda, e quem sabe se não é em Tomar que será um dia encontrado. Desta cidade à Batalha e Alcobaça, os Cavaleiros do Templo e de Cristo dominam toda a região oeste.

Diz a lenda que são muitos os túneis e cavernas subterrâneas, ligando os lugares da Ordem. Nas construções sobrevivem numerosos símbolos, alguns tão estranhos como uma cabeça de cabra, referência ao mítico bafomet – no processo contra os Templários, estes foram acusados como adoradores do diabo. As alianças templárias com potentados islâmicos na Terra Santa terão passado por “traição” e existiriam “liturgias” estranhas.

Da renascença portuguesa ficou o fantástico Convento de Cristo, foco das lendas que envolvem os antigos Templários, acrescentado ao mosteiro e à fortaleza medievais, bem merecedor de uma visita prolongada. O castelo tornou-se um resíduo da vocação guerreira. Lá bem perto, construída entre 1160 e 1250, a charola decerto evocaria aos membros da Ordem os primeiros anos dos Templários em Portugal.

Quinta da Regaleira

Nem todos os pontos de passagem neste roteiro têm a sua origem na história antiga de Portugal e a Quinta da Regaleira, em Sintra, obra do arquiteto Luigi Manini, tem a sua origem no amor romântico ao passado em que o final do Séc. XIX e o princípio do Séc. XX foram pródigos. Mas o que nos leva a incluí-la numa rota do oculto?

Manini, homem de espírito científico, vastíssima cultura e rara sensibilidade, deixou impresso neste livro de pedra a visão de uma cosmologia cujas raízes mergulham na Tradição Mítica Lusa e Universal. A arquitetura e a arte do palácio, capela e demais construções foram cenicamente concebidas no contexto de um jardim edénico.

O jardim, representação do microcosmo, é revelado pela sucessão de lugares imbuídos de magia e mistério. O paraíso é materializado em coexistência com um inferius – um dantesco mundo subterrâneo – ao qual o neófito seria conduzido pelo fio de Ariadne da iniciação, uma peregrinatio mundi, por um jardim simbólico onde podemos sentir a Harmonia das Esferas.

Nele se vislumbram referências à mitologia, ao Olimpo, a Virgílio, a Dante, a Camões, à missão templária da Ordem de Cristo, a grandes místicos e taumaturgos, aos enigmas da Arte Real, à Magna Obra Alquímica. Aqui se fundem o Céu e a Terra numa realidade sensível, a mesma que presidiu à teoria do Belo, da Arquitetura e da Música, que a concha acústica do Terraço dos Mundos Celestes permite propagar pelo infinito.

Sao Vicente ©iStock, Matthieu_Photoglovsky

Sao Vicente ©iStock, Matthieu_Photoglovsky

Casa das Pedras

Situada na Parede, no concelho de Cascais, a Casa das Pedras foi construída na Quinta do Moledo por Manuel de Azevedo Gomes, capitão da marinha e amante do mar, com projeto do arquiteto italiano Nicola Bigaglia, que desenhara o recém-construído chalet da Condessa d’Edla na Quinta da Condessa.
A casa data dos primeiros anos do século XX, com paredes rasgadas por numerosos vãos, que aligeiram o seu aspeto pesado e maciço. O cenário romântico dos terrenos que se espraiam sobre as arribas da Parede conjuga-se com as opções estéticas do projeto – uma casa acastelada e inteiramente revestida com calhaus marítimos, desde pequenos seixos rolados até pedras de grandes dimensões.

Esta arquitetura “bruta”, mas orgânica, plena da fantasia típica da época, é evocadora de cenários medievais e sugestões de mistério e nostalgia. A casa, semioculta, parece revelar-se apenas onde se abrem vãos no monte de pedras – ou moledo.
Nesta mansão supostamente desabitada, diz-se que se passam fenómenos estranhos, que as luzes se apagam e acendem, que os vultos nas janelas são uma constante e que as portas e as janelas batem constantemente. Pura fantasia. Que se saiba, nela vivem ainda os netos do capitão Azevedo Gomes, já nonagenários.

Palácio do Beau Séjour

A escolha do Palácio do Beau Séjour para figurar nesta lista é absolutamente pessoal. Quase todos os dias da minha infância passei junto ao muro e ao portão do palácio, em São Domingos de Benfica, sem imaginar o que se escondia atrás, olhando com curiosidade e algum receio.

O Palácio foi mandado construir pela Viscondessa da Regaleira em 1849, na Quinta das Campainhas. Adquirido mais tarde pelo Barão da Glória, sofreu modificações, tendo sido a fachada revestida a azulejo e o jardim aumentado. Os seus sobrinhos e herdeiros encetam uma profunda remodelação dos interiores, contratando os irmãos Bordalo Pinheiro, Maria Augusta, Rafael e Columbano, e o decorador Francisco Vilaça.

O Palácio e o jardim passam mais tarde para a posse da Câmara, que os restaura, sendo hoje possível admirar o famoso teto do Salão Dourado, uma tela pintada por Columbano Bordalo Pinheiro intitulada “O Carnaval de Veneza”, o lavatório ornamental de Rafael Bordalo Pinheiro, e o teto da Galeria de Pintura pintado por Francisco Vilaça. Desde 1992 que neste espaço funciona o Gabinete de Estudos Olisiponenses.

É provavelmente normal, num palácio antigo como este, mas alguns empregados afirmam que o Barão da Glória ainda lá anda a fazer das suas… Os livros e arquivos aparecem em lugares onde supostamente ninguém os colocou, e os barulhos estranhos também fazem parte desses relatos assustadores.

Cabo de São Vicente e Ponta de Sagres

A última paragem do nosso roteiro, no extremo sudoeste de Portugal continental, lugar mágico associado para sempre às descobertas, revela-nos a lenda de São Vicente e leva-nos de volta à capital.
Diz a lenda que S. Vicente, pregador cristão, morreu jovem, torturado pelos romanos, no ano de 304. A Vicente são aplicados vários tormentos, o corpo é picado com garfos de ferro, obrigam-no a deitar-se sobre brasas. Morto de tanto mau trato, o corpo é largado no campo para servir de pasto às feras, mas os corvos protegem-no. É por isso lançado ao mar atado a uma pedra, mas volta à costa, teimoso, e guardado em Valência.

No século VIII, temendo profanação, devotos levam as relíquias até ao Algarve, depositando-as no Promontório Sacro – Sagres – onde construirão um santuário a que os árabes juntarão uma mesquita. No século XII o corpo acaba guardado num sítio ainda mais a ocidente, designado em latim por Cabo de S. Vicente do Corvo. Nascia um local de culto dos cristãos moçárabes que durante o período do Al-Andaluz rumarão por mar ao Pontal dos Corvos.

Em 1173, Afonso Henriques decide trazer por mar as relíquias para Lisboa, tomada 26 anos antes, para unir a cidade em torno do santo. Os ossos vicentinos são carregados a bordo e regressam à capital, tendo a viagem, segundo a lenda, proteção sobrenatural, com mar anormalmente calmo e a vigia constante dos corvos, ainda hoje no escudo da cidade.

As relíquias ficam então na capela-mor da Sé, que passa a cenário de um elaborado ritual que se repete em torno do túmulo. Ao santo dos corvos são atribuídos diversos milagres. Será por isso alvo de grande devoção dos populares que o celebravam de forma festiva. Mas, 22 anos depois da chegada das relíquias à Sé de Lisboa, batizava-se na freguesia Fernando de Bulhões e a devoção da cidade plebeia iria toda para o frade franciscano, o Santo António em nome de quem milhares de lisboetas saem à rua todos os anos.

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